O Senhor é o meu pastor - Salmo 23

Anísio Renato de Andrade

A criação de ovelhas era uma das atividades econômicas mais comuns em Israel e em outras nações na época do Velho Testamento. Davi, antes de ser rei, foi pastor de ovelhas (I Samuel 16.11). Ao escrever o salmo 23, o autor tinha em mente todo o seu cuidado para com as ovelhas e tomou isso como exemplo do cuidado de Deus para conosco.

Por isso ele disse: "O Senhor é o meu pastor." Davi sabia que Deus, sendo o seu pastor, cuidaria dele. Observe que o salmista utiliza em todo o salmo as conjugações da primeira pessoa do singular. O texto está falando de uma experiência pessoal e intransferível que cada pessoa deve ter com Deus.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará." Isso não significa que Deus nos dará tudo o que queremos, mas nos dará tudo o que precisamos. Mas isso só acontecerá se o Senhor for realmente o nosso pastor, ou seja, se ele estiver conduzindo as nossas vidas. Se nós só fazemos a nossa própria vontade, escolhendo os caminhos que agradam ao nosso coração, mesmo sendo em direções pecaminosas, então o Senhor não é o nosso pastor. Mas se estamos vivendo de acordo com a sua vontade para nós, então estamos seguindo o Senhor como suas ovelhas. Portanto, tudo começa com compromisso e obediência. Essa é a essência do versículo 1. Se estou comprometido como ovelha, para obedecer e seguir ao Senhor, então ele está comprometido comigo para cuidar de mim e me dar tudo o que preciso.

"Nada me faltará." Está faltando alguma coisa em sua vida? Talvez você pense que sim, mas pense novamente. Muitas vezes temos um ilusório sentimento de falta. Isso pode ser maligno. Deus nos deu pão e achamos que falta manteiga. Deus nos dá manteiga e achamos que falta queijo. Deus nos dá queijo e achamos que falta presunto. Afinal, quando Deus nos deu pão, nossa necessidade já estava plenamente suprida. Ao pensar assim, podemos dizer: Graças a Deus! Obrigado, Jesus! Quando os israelitas atravessavam o deserto, Deus lhes deu o maná. Ele vinha todos os dias, exceto no sábado, quando comiam o que restava do sexto dia. Nunca faltava, mas o povo nunca estava satisfeito (Num.11.4-10). Esta insatisfação chama-se cobiça, concupiscência (Ec.6.7; I Jo.2.16). Queriam carne. Deus lhes deu o que pediam, mas isso lhes fez mal (Num.11.31-35). Precisamos ter cuidado com o que queremos. Não estamos impedidos de orar pedindo algo que não seja pecaminoso. Contudo, precisamos estar dispostos a receber um "não" como resposta. Então, paramos de pedir (II Cor.12.8-9).

"Nada nos faltará." Realmente, nada nos tem faltado. O que precisamos o Senhor nos tem dado. Se alguns desejos legítimos não foram ainda atendidos, sabemos que para tudo Deus tem um tempo certo. Nada nos faltará no momento em que o suprimento se fizer necessário e oportuno.

Algumas vezes Deus nos dá muito mais do que aquilo que precisamos. Então passamos a ter em abundância. O nosso cálice se enche ao ponto de transbordar (v.5). Então podemos ter a alegria de compartilhar com o nosso próximo, não deixando que o seu cálice fique vazio.

A partir do versículo 2 do salmo 23, o autor mostra o que acontece na vida do servo de Deus. Temos aí muitos pontos pontos positivos, como verificamos nos versos 2, 3, 5 e 6: repouso, descanso, segurança (deitar-me faz...), pastos verdejantes (bom alimento), águas tranqüilas, refrigério para a alma, direção (guia-me); justiça; amor; mesa; óleo (unção); bondade e misericórdia. Essas palavras nos mostram que Deus está atento para suprir as necessidades fundamentais do ser humano, abrangendo questões físicas, psicológicas e espirituais. Só não temos aqui artigos que atendam à cobiça e à soberba. Ele não vai nos deixar sedentos, famintos, perdidos e abandonados

Por outro lado, o texto contém também pontos negativos: O vale da sombra da morte no verso 4 e os inimigos no verso 5. A vara (v. 4), enquanto instrumento de disciplina, pode também ser aparentemente negativa, embora seu objetivo seja positivo.

Isso mostra que a vida com Deus não é uma fantasia, um "mar de rosas". As dificuldades fazem parte do caminho. Ele nos leva pelas "veredas da justiça" e vereda é um caminho estreito. Davi se lembrava de que, quando conduzia as ovelhas, encontrava-se com animais predadores que queriam devorá-las. Ele chegou a matar um leão e um urso para proteger o rebanho (I Samuel 17.36). Do mesmo modo, em nossa vida cristã encontramos o diabo, que ruge como leão tentando nos destruir (I Pedro 5.8). Mas o salmista demonstra sua vitória ao dizer: "Não temerei mal algum porque tu estás comigo." Esta talvez seja a frase de maior destaque no salmo: "Tu estás comigo." O mais importante não é o que Deus pode nos dar mas a sua própria presença conosco. Em qualquer lugar em que ovelha estivesse, ficaria tranqüila ao levantar a cabeça e ver o cajado, pois este seria um sinal de segurança pois o pastor estava presente, atento e cuidadoso.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará." Não nos faltarão bênçãos. Não nos faltarão lutas nem adversários, mas tudo isso cooperará para o nosso bem, pois a bondade e a misericórdia do Senhor sempre nos acompanharão.

O último versículo nos mostra que essa nossa caminhada com o Senhor é eterna. Depois de atravessarmos o vale da sombra da morte neste mundo, entraremos na casa do Senhor. Lá não haverá mais inimigos nem mal algum. O salmo 23 fala da jornada do salmista durante sua vida, como a ovelha que caminha com o pastor durante todo o dia. Quando se aproxima a noite, as ovelhas são recolhidas. Assim será conosco. Seremos recolhidos à casa do Senhor, onde passaremos a eternidade.

Disse Jesus: "Na casa de meu Pai há muitas moradas... Vou preparar-vos lugar... para que onde eu estiver estejais vós também." (João 14.2-3).

 

 

O ministério pastoral

Anísio Renato de Andrade

Além das considerações sobre nossa relação pessoal com o Senhor, podemos ler o salmo 23 tendo em mente o ministério pastoral exercido na igreja, embora não tenha sido este o objetivo do autor. Através dessa passagem bíblica podemos perceber características necessárias aos pastores e outros líderes, como imitadores e representantes do Sumo Pastor.

O amor (v.3) é o primeiro requisito para o ministério pastoral. O pastor precisa ser bondoso e misericordioso (v.6). Precisa amar ao Senhor, amar as ovelhas, amar a obra de Deus. Em segundo lugar, a justiça (v.3) deve pautar o exercício do ministério. A corrupção, a desonestidade, a mentira, a injustiça e a arbitrariedade não se coadunam com os propósitos de Deus.

O pastor deve alimentar as ovelhas (v.2), dando-lhes o mais puro alimento espiritual, que é a Palavra de Deus. Isso requer preparo, dedicação e habilidade. Muitos estão preocupados é em alimentar-se das ovelhas. O sustento do obreiro é legítimo e necessário. Contudo, não se deve admitir que as ovelhas sejam espoliadas, exigindo-se-lhes contribuições compulsórias ou trabalho forçado. Ofertas sacrificiais podem ser algo maravilhoso, mas devem ser voluntárias por parte daqueles que as realizam, e não resultado de manipulação, pressão ou constrangimento. O pastor deve visar, em primeiro lugar o benefício das ovelhas e não o seu próprio. Se o pastor engorda e as ovelhas definham, algo está muito errado. Tais considerações se referem aos falsos pastores, mas é importante que os verdadeiros também estejam sempre atentos a isso para não incorrerem em erro.

O pastor deve guiar as ovelhas (v.2). Esse ministério inclui o ensino, o aconselhamento, a admoestação, sempre visando o melhor caminho para a ovelha. O líder precisa ajudar seus liderados em suas decisões, mas isso não significa decidir no lugar deles. Esse papel de condutor pressupõe experiência anterior. O pastor só pode levar as ovelhas em caminhos por onde ele mesmo já tenha passado. Assim, observamos que o neófito ou novo convertido não está ainda apto para o ministério (I Tm.3.6). Entusiasmo não substitui a experiência. É muito difícil dizer qual seria o tempo necessário entre a conversão e o ministério, mas o certo é que, antes de ser pastor, a pessoa precisa ser ovelha durante o período suficiente para conhecer os caminhos dos "pastos verdejantes" e as formas de combate ao adversário. O candidato ao ministério deve conhecer muito bem a bíblia e ter também conhecimento de Deus através de experiências espirituais. O tempo que os discípulos tiveram com Jesus antes de exercerem seus próprios ministérios é uma boa referência. O pastor prematuro pode ser uma fonte de heresias, colocando em risco a saúde e a vida das ovelhas.

Guiar não é sinônimo de manipular. A exigência pela obediência tem sido usada por muitos para que seus liderados façam tudo o que o líder quer. Isso, em muitos casos, tem chegado a extremos absurdos. Dizendo ser a vontade de Deus, muitos líderes levam suas ovelhas para o caminho do abismo. Por isso, é importante que cada cristão examine a bíblia, que funciona como bússola para sabermos se a direção dada pelo líder está certa (At.17.11). Se estiver coerente com as Escrituras, então vamos segui-lo, vamos apoiá-lo com nossos recursos e nossas forças. Caso contrário, precisaremos rever nossa posição e compromisso.

Outro fator importante é a pluralidade ministerial na igreja. É importante que haja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, tudo no plural, conforme está em Efésios 4.11. Esses homens devem atuar em conjunto, devem ouvir uns aos outros, afim de que não prevaleça a vontade de um homem, mas o entendimento da vontade de Deus (At.15).

O líder deve ser um orientador e não um dominador do rebanho (I Pedro 5.1-3). Dominador é aquele que tem o domínio, ou seja, é o Senhor. Somente ele é o dono das ovelhas. Os pastores humanos são cuidadores, orientadores, mas não são os donos. Não está certo o líder querer controlar a vida das pessoas. Ele deve ensinar os princípios divinos para uma vida reta. Depois, deve deixar que cada um decida livremente o que fazer. Não é o líder quem deve decidir sobre o casamento, a casa, o emprego, a viagem ou os negócios dos membros da igreja. Nem deve exigir que tudo lhe seja comunicado no que diz respeito à vida particular. Isso se torna um fardo insuportável, além de não ter fundamento bíblico. Um pastor não deve ser um ditador.

O pastor deve guiar mansamente (v.2). Não basta fazer o trabalho. Precisamos ver como o trabalho está sendo feito. O modo está em destaque: mansamente. A ovelha é um animal dócil e frágil. Precisa de proteção e não de espancamento. Embora existam também bodes no meio do rebanho, nem a eles o Senhor mandou maltratar (II Tm.2.25). Afinal, espiritualmente falando, é muito difícil discernir quem é bode e quem é ovelha. Seria como separar o joio do trigo, e essa tarefa cabe a Deus e não a nós (Mt.13.28-30; Mt.25.33). O pastor precisa ser manso e humilde com suas ovelhas. Mesmo quando falar do pecado, deve fazê-lo com mansidão (Gálatas 6.1), pois o próprio líder, se pecar, desejará ser tratado da mesma forma.

O pastor é aquele que vive para livrar as ovelhas da morte, para salvá-las das garras do leão. Que Deus abençoe os nossos pastores, que tanto têm trabalhado, dando suas vidas pelas ovelhas. Que Jesus, o pastor de todos nós, lhes dê a recompensa pelo seu esforço nessa causa tão nobre.

 

 

Anísio Renato de Andrade

Bacharel em Teologia

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